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Trajetória Grupo Ueba

Atualizado: 27 de fev.


Em tempos de “Modernidade Líquida”, onde

tudo se esvai e perde o valor como num piscar de olhos, manter a arte viva em um coletivo teatral por cerca de 20 anos não é tarefa fácil. O Grupo Ueba Produtos Notáveis perpassa do efêmero fazer teatral para habitar o imaginário permanente de sua aldeia, e dela cantar e encantar o mundo, como profetiza Leon Tolstói.

É neste fazer local e global que o Grupo Ueba Produtos Notáveis firma sua existência a partir de sua sede, a fria e maquinosa Caxias do Sul, encravada na Serra Gaúcha. Pujante na colonização italiana


, atualmente miscigenada, é um grande centro metalúrgico do país, a cidade inspira a versatilidade do grupo que, assim como o imigrante está sempre em movimento buscando novos territórios, sejam geográficos ou no imaginário daqueles com que se relaciona.

Fundado em 2004 pelo casal Jonas Piccoli e Aline Zilli o grupo delimitou como norte o fato de não ter fronteiras. Esta ideia faz com que o Grupo esteja sempre em aprendizagem e inovação, sejam de novas técnicas do fazer artístico multifacetado, a exploração de novos campos e linguagens, seja guinando sua abrangência a outras formas de navegar com seu público, ou ocupar novos espaços.

A inquietação da dupla fundadora fez com que no início de suas atividades a atuação teatral fosse das mais amplas possíveis. Das apresentações de cunho educativo em escolas e empresas às brincadeiras na palhaçaria, das animações de eventos a visitação hospitalar, das pernas de pau às experimentações mais densas falando de mazelas humanas. A exploração destes variados campos levou o grupo a definição de duas importantes vertentes do seu trabalho: O teatro em todos os lugares, e o riso como agente de reflexão.

Os espetáculos embrionados pelo Grupo Ueba Produtos Notáveis tem uma forma inusitada, simples, direta e poética de se comunicar com seu público, transpondo a quarta parede e utilizando os espaços alternativos para potencializar a ação teatral e a interação público-ator. Mesmo no palco os atores transpassam limites e tem como marca o estado de jogo e o improviso como forma de ter sua arte viva, para além do vivenciado na repetição da exibição do seu repertório, composto atualmente de dez peças.

Com o passar do tempo o Ueba optou por ter a rua, o espaço público, como seu principal palco, acreditando assim poder diminuir as distâncias entre as classes sociais e assim fazer toda plateia jogar junto com o jogo de faz de conta dos atores, nivelando os saberes e as diferenças, tornando todos iguais diante dos temas de seus espetáculos. Neste sentido descobriu que através do riso poderia acessar o camp o da imaginação, e lá poderia semear um pouco do seu pensar sobre o mundo e o que lhes impactava.


Arte na Rua


Com sua arte na rua o Grupo Ueba Produtos Notáveis firmou mais ainda seu pé na estrada. Com sua trupe composta de oito artistas, e alguns convidados, passou a realizar circuitos de apresentações no interior de Caxias do Sul, apresentando-se por localidades distantes e ainda de ares coloniais. Circulou por mais de trezentos e cinquentena municípios no Rio Grande do Sul e logo conquistou seu espaço nacional, passando por mais 14 estados do Brasil. Nesta jornada também alçou voos internacionais com pouso no Chile, Venezuela, Uruguai e Itália, onde esteve para aperfeiçoamento e apresentações.

Ao longo de sua trajetória, marcada também por intercâmbio com coletivos nacionais e internacionais das mais diversas linguagens, o grupo então percebe que sua arte começa a ter alguns elementos de identificação de uma espécie de linha estética-autoral.

A dramaturgia passa a ser mais elaborada e fixa alguns elementos como a predileção de trazer a leitura de clássicos para a cena contemporânea, com os espetáculos de Shakespeare, em “A Megera Domada” para tratar sobre relações humanas entre o casal, e o clássico texto de Miguel de Cervantes adaptado ao “Bom Quixote – Delírio Urbano” abordando os desafios dos nossos tempos atuais, e mais recentemente “Moby Dick”, de Hermam Melville, abordado através do espetáculo “As Aventuras do Fusca à Vela” em que trata sobre a vingança e a relação com a natureza.

As obras levadas a rua passam a carregar algumas marcas indeléveis do grupo. O uso da comicidade, seja através da palhaçaria do clássico “Zão e Zoraida” ou mesmo da bufonaria presente em “A Mãe e o Monstro” para tratar das mazelas femininas que, usado em pitadas precisas e vorazes, geram o riso da identificação ou da reflexão na busca por mudança de comportamentos. Em “A Mordaça” o grupo tratou sobre o uso consciente de tecnologia para os jovens. Os temas levados à cena variam da leveza da amizade à importância da leitura, até assuntos mais complexos e pesados como violência contra mulher, machismo, abuso de poder, vingança, preconceitos, proteção ao meio ambiente, entre outros aspectos, sempre exploradas de forma sutil através dos diversos recursos cênicos explorados em suas obras.

Uma reconhecida marca do Grupo Ueba Produtos Notáveis é o uso de formas animadas para potencializar sua atuação na rua. Os elementos ressignificados abrem um campo lúdico entre atores-manipuladores e a plateia, a imaginação é amplamente ativada, estabelecendo uma espécie de transe em conexão. Exemplo disto é cena do aparecimento de uma sereia voadora ou mesmo de ferozes tubarões atiçando a plateia em “As Aventuras do Fusca à Vela”. O próprio veículo Fusca torna-se uma forma animada, e diante da plateia deixa de estar em um ferro-velho e joga-se no mar, transformando-se primeiro em embarcação e por fim em uma baleia. Imagens potentes e inesquecíveis diante do olhar do espectador.

Outros espetáculos também carregam essa marca do grupo, como “Fábulas do Sul”, relendo as lendas do pampa gaúcho, traz à cena um cavalo mecatrônico em proporções reais. Ou porongos que viram a casa do índio Mbororé e que adicionado de um tecido se transformam na cobra M-boitatá. Neste espetáculo também há um valoroso uso de máscaras para distinção de personagens, três atores dividem sete arquétipos, além do boneco de manipulação direta que dá vida ao Negrinho do Pastoreio, tradicional lenda gaúcha. E assim o grupo segue contando da sua aldeia para falar ao mundo.

Além das precisas manipulações de objetos e do uso da comicidade para abordar temas sensíveis, outra marca que tem sido percebida é a experimentação estética do Steampunk. Trata-se de um gênero da ficção científica, já há muito explorado na literatura e cinema, que ambienta a obra em um mundo alternativo, em que a evolução da eletricidade e vapor delimitou o avanço científico da época, século XIX, como uma espécie de retrofuturismo. O Grupo Ueba investe na utilização de muitos tipos de materiais como metal, couros e madeiras, numa gama de tons ferrosos e alaranjados que conferem um ar metálico-puído de uma dura-leveza aos elementos da cenografia cheia de traquitanas, assim como das vestimentas.

É importante também destacar o envolvimento do Grupo Ueba em uma das principais festas comunitárias do país, a Festa da Uva. Ora como figurantes, ora como coordenadores ou diretores e até mesmo dramaturgos, o envolvimento da equipe é sempre muito bem recebidas pelo público, seja no centro de eventos ou ainda no grande desfile que acontece tradicionalmente no centro da cidade. Para os integrantes este é um momento especial de vínculo com a comunidade, são meses em contato com os mais diversos grupos da cidade, seja rural, ou escolar, folclóricos, etc, treinando voluntários para participar das encenações alegóricas do festejo.



Artes na Literatura


O espectador teatral é entendido pelo Grupo Ueba como um leitor privilegiado que utiliza todos os seus sentidos sensoriais. Os espetáculos são criados fornecendo elementos que contem uma história, seja pela narrativa verbal entre as personagens, pela unicidade estética de todos os elementos que despertam sensações variadas ou pela forma com que se transformam diante dos olhares atentos de crianças e adultos. A narrativa é oferecida ao espectador sem que isso o limite, ele é acionado a ativar sua imaginação e preencher lacunas com suas experiências de vida, sonhos ou anseios em um processo coletivo. Na literatura mecanismos semelhantes convidam o público ao fantasioso. Diálogos nas páginas de um livro, assim como no palco, revelam histórias, conflitos e territórios humanos que ativam a memória, a reflexão e os sentidos.

Seja na cena ou na literatura, o sujeito está intimamente solicitado a ativar o imaginário para absorver a obra. Desta forma o grupo também lançou-se ao desafio de gerir a Editora Ueba, que publica essencialmente as obras vinculadas ao coletivo teatral e de artistas parceiros. Aqui o destaque é o caminho o inverso ao tradicional: primeiro vêm o espetáculo teatral, depois o livro. Jonas faz a dramaturgia de gabinete, leva para a cena em que propõe criação colaborativa com elenco, enquanto tambémfaz às vezes de ator e diretor. Espetáculo estreado é prato cheio para ele retomar a história colocando-a no papel de conferindo ao livro outras nuances.

Esta transversalidade propõe ao leitor ser espectador, ou ao espectador ser leitor. E este amplo contato com a obra permite que o efêmero do teatro perdure por uma experiência mais longa e potencialmente vívida através das páginas portáteis dos livros, que talvez cheguem aonde o teatro não possa estar.


Artes em Tempos pandêmicos


A ano de 2020 trouxe ao Grupo Ueba, e ao mundo todo, um desafio: o distanciamento social. Foi preciso muita resiliência para seguir produzindo arte e conseguir entregar ao público que não estava mais diante do elenco. Este período fortaleceu a fortaleceu a produção literária do grupo com lançamento de novas obras, mas principalmente trouxe o desafio de migrara a cena presencial para a telinha, e neste sentido o grupo Ueba novamente se reinventou, produzindo documentários, webséries e até mesmo um filme.

Embora a migração para o audiovisual iniciou pela produção de documentários sobre a trajetória do grupo e de algumas de suas obras, foi a web série “Sótão da Flor”, que manteve o vínculo do grupo com seu público infantil e infantojuvenil, levando conteúdos sobre artesanato, literatura e folclore, dentre outros. Já são cerca de 50 episódios no ar que ultrapassa milhares de visualizações no Youtube. O Sucesso da produção seguiu para além da pandemia, e a série está em sua terceira temporada, desta fez com cantigas do populário gaúcho e nacional.

No ano de 2021 foi estreado o “Fábulas do Sul – O Filme”, em que faz referência a obra homônima de autoria de Jonas Piccoli, e que aborda as principais lendas do Rio Grande do Sul, tambémb disponível gratuitamente na internet.

Se para ser universal é preciso cantar a sua aldeia, o Grupo Ueba sempre esteve neste caminho. No ano de 2012 o grupo lança o espetáculo “Radicci e Genoveva – em a vida de casal nón é fácil”, inspirada nos personagens típicos da imigração italiana em Caxias do Sul, trazendo para cena as peripécias de um casal e suas afiadas relações no jogo do augusto e do branco. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É durante o processo de ensaio deste espetáculo, que fala sobre sua própria aldeia, que a dupla Jonas e Aline conhece o Moinho da Cascata, até então em situação de desuso para, dois anos depois passar a ser sua sede.


Arte no Moinho da Cascata


A história do Moinho da Cascata é tão visionária quanto a trajetória do grupo Ueba. O local é tombado como patrimônio histórico de Caxias do Sul, sendo a primeira edificação a gerar energia elétrica na cidade, talvez uma metáfora para sua nova função, estar gerando energia através da arte, a partir da sua transformação em centro cultural pela trupe.

O prédio do antigo moinho de grãos e energia fica em área descentralizada às margens do Arroio Tega, em uma região entre um bairro nobre e populoso e área de ocupação Cohab. Era comum que o espaço sofresse constante depredação de suas vidraças e tentativas de invasão de suas dependências. Em sua primeira ação de ocupação o Grupo Ueba Produtos Notáveis abriu as portas do prédio convidando a comunidade a participar de suas apresentações e de convidados, desta forma aproximou-se do público vizinho e passou a promover atrações com frequência, como por exemplo a Mostra Arte na Margem, em qual apresenta o repertório teatral do grupo gratuitamente.

Estas ações de inclusão e democratização do acesso à arte garantiu tranquilidade ao coletivo, respeito e apropriação do espaço pela comunidade, que abraça as atividades há 10 anos. O espaço também já foi utilizado por outras companhias de dança e teatro como residência artística para criação de novos espetáculos, sendo abraçados de forma gratuita.

O Moinho da Cascata foi recentemente palco para contar a história da jovem Vivita Cartier, falecida por tuberculose no início do século XIX, artista multifacetada com uma intrigante história de vida e uma intensa obra poética que acaba por inspirar um espetáculo de ocupação do espaço. O Grupo Ueba lança então o espetáculo “Vivita – a Noiva do sol” no centenário de sua morte, em 2019, e convida o público a deslocar-se pelos 1.200 metros do Centro Cultural Moinho da Cascata - divididos em três andares e seu extenso pátio - para acompanhar a vida desta jovem feminista à frente do seu tempo, marcando assim a história do prédio, da cidade e sua própria história na aldeia global.

A partir do ano de 2021 o Grupo Ueba, juntamente com a Associação Ação do Bem, passa a promover, no Centro Cultural Moinho da Cascata, oficinas de teatro e circo, de forma gratuita no contraturno escolar para crianças em vulnerabilidade social. Dezenas de crianças aprendem técnicas artísticas, além de ganharem cestas básicas pela sua frequência, fato importante para as famílias envolvidas.


Quase 20 primaveras


O Grupo Ueba está em busca constante de apoio para poder tornar o espaço um ponto contínuo de visitação, para integrar as ações de cultura, educação e turismo, ampliando assim o alcance do público aos serviços que o espaço oferece.

O Grupo Ueba Produtos Notáveis segue ativando o imaginário, usando as fragilidades e mazelas do mundo como fertilizante para que suas criações floresçam ao longo destas quase 20 primaveras, pois como já dizia a antiga canção italiana: “de um diamante não nasce nada, mas do estrume nascem flores”. Ciclo após ciclo o coletivo segue em constante transformação, pesquisa e criação para florir, pois acredita na importância do teatro, especialmente o feito na rua por sua característica cidadã, transversal e democrática, como agente de transformação social do indivíduo e da sociedade.

As intervenções artísticas ao ar livre ou em espaços alternativos, seja em um fusca, em uma torre, com um clássico de Shakespeare ou uma dramaturgia própria, costumam quebrar a lógica do cotidiano através do poético e com isso talvez o espectador possa ser inundado por sensações não vivenciadas antes, ampliando sua dimensão perceptiva e de senso crítico. Assim o espectador assume sua condição de sujeito ativo no processo artístico e cultural, capacidade acionada especialmente pelas artes presenciais.

A atuação da equipe também caminha ao encontro do fortalecimento das políticas públicas culturais, sempre engajados em conselhos, colegiados, fóruns das diferentes esferas públicas e instancias culturais. O tempo doado a estas causas são certamente de grande valor para toda a comunidade, amadurecendo o senso coletivo e plural das artes.

É no campo da resistência artística através da poética que o Grupo Ueba vem persistindo e atuando de forma filosófica, destemida, abrangente, versátil e pujante, potencializando os encontros com seu público através da literatura e do teatro. São 20 anos semeando arte para que se possa colher frutos num território de justiça social instigado pela arte e pela dedicação do seu fazer cultural. Que o efêmero fazer teatral possa sempre ser combustível nesta contínua e consolidada trajetória do Grupo Ueba Produtos Notáveis.


Texto de Aline Zilli - 2021



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